Claudio Jorge - sambista - violão 7 cordas e compositor
foto:
Chapinha no Cimples Ocio em 2005
Como não tenho o dom da caneta fácil, de escrivinhar simples e bonito copiei o texto do músico Claudio Jorge sobre o Samba da Vela.
Em março de 2004 trouxe o samba da vela para o Parana, no Cimples da praia. Foi a primeira viagem deles para fora de São Paulo. Combinei com o Magno, fretei um onibus de 44 lugares e veio o pessoal todo - meninas da portaria, cozinheiro, cadernos com os sambas, Chapinha, Paquera, Magno, Maurilio, silêncio, sem plugar nada, poesia, samba. Segue o texto:
Chama Acesa
Cláudio Jorge - Dezembro de 2003
CHAMA ACESA É
pensando em todos os brasileiros amantes da cultura de sua terra que escrevo este texto falando de uma roda de Samba que conheci em Santo Amaro, São Paulo. Dedico este texto a estes brasileiros, que como eu, vivem a angústia do retrato atual da nossa realidade cultural. Depois desta noite, sempre que me referir a este assunto, falarei em cultura brasileira aparentemente ameaçada. Digo aparentemente por conta do que eu vi no "Samba da Vela". Foi animador. Um sopro de felicidade, prazer, esperança, alegria, amizade, uma emoção muito especial enfim.Então caro leitor imagine através destas mal traçadas linhas o lugar e o fato que eu vou lhes contar. Vamos nessa.Segunda feira, 20 horas. Salão central do Centro Cultural de Santo Amaro, São Paulo. Quando se chega por perto já se ouvem as vozes de homens e mulheres cantando um Samba. Cheguei na portaria curioso e animado, pronto para descolar logo uma latinha e cair dentro da roda. Na portaria, uma contribuição de R$2,00 para ajudar na produção, dá direito a um caderno cheio de letras de música. Dou uma olhada rápida, não entendo propósito do caderno e vou em frente. Aí o primeiro choque. Cerca de duzentas pessoas em pé e sentadas em torno de uma mesa e uma vela acesa. Lá, Chapinha, os garotos do Quinteto em Branco e Preto e outros músicos tocavam e cantavam. A cada momento era chamada uma pessoa para ir lá e cantar seu Samba. Aí meus amigos a ficha começou a cair e o bicho pegou.Os caras se encontram para cantar Sambas inéditos. Samba carimbado pelo sucesso não vale. No caderno, que é editado uma vez por mês, estão os Sambas que tiveram mais aceitação pelo público nas semanas anteriores. Todos cantam e aplaudem muito no final. Emocionante. O nível dos Sambas é alto e a faixa etária média é abaixo dos 30 anos. Enquanto a vela estiver acessa o Samba não para e dependendo do clima, que pra minha sorte estava especial naquele dia, o Samba seguiu mesmo com a vela apagada. Fui gentilmente convidado a dar uma canja e quase chorei ao sentir a confirmação do que vi escrito numa faixa ao alto: "O silêncio é uma oração". A atenção para o que é ali cantado é total na primeira vez do Samba, "na volta", já rola até um coro e palmas e, se o Samba for daqueles, o pessoal levanta das cadeiras e sacode a poeira. Pra completar, não há sistema de som, nem serviço de bar. Apenas um pequeno gravador ao lado da vela que serve para gravar os encontros. Se existe um templo do Samba é lá no Samba da Vela. Inacreditável. Emocionante. Maravilhoso e como não podia deixar de ser, invejável.Saímos de lá depois da meia-noite e a grande maioria se manda para pegar o último ônibus para os seus destinos. Os motorizados ou os que perderam a condução, se concentram bar em frente e aí tudo recomeça, só que regado a cervejas e vale cantar o que quiser.Foi um grande presente de natal que ganhei do Mano Heitor, parente do Martinho da Vila que lá me levou. Foi a confirmação de tudo que sempre achei e lá encontrei. Há uma grande juventude brasileira envolvida com a criação e divulgação do Samba brasileiro. Há um Brasil que não aparece no rádio nem na TV. Há uma chama acesa que nunca vai se apagar. É a chama da alma de uma juventude que fala português, toca tambor, cavaco e violão, canta e compõe num estilo altamente sofisticado musical e poeticamente falando.O que eu vi lá em São Paulo foi uma verdadeira manifestação cultural que tem o Samba como objetivo principal. E mais, uma oportunidade que deveria ser imitada por todos que é parar para ouvir Samba. O lucro das bebidas, as gatinhas para paquerar e bate papo enquanto o cara ta cantando, fica lá para o bar que é lugar disso.
fonte: http://www.claudiojorge.com.br/
Em março de 2004 trouxe o samba da vela para o Parana, no Cimples da praia. Foi a primeira viagem deles para fora de São Paulo. Combinei com o Magno, fretei um onibus de 44 lugares e veio o pessoal todo - meninas da portaria, cozinheiro, cadernos com os sambas, Chapinha, Paquera, Magno, Maurilio, silêncio, sem plugar nada, poesia, samba. Segue o texto:
Chama Acesa
Cláudio Jorge - Dezembro de 2003
CHAMA ACESA É
pensando em todos os brasileiros amantes da cultura de sua terra que escrevo este texto falando de uma roda de Samba que conheci em Santo Amaro, São Paulo. Dedico este texto a estes brasileiros, que como eu, vivem a angústia do retrato atual da nossa realidade cultural. Depois desta noite, sempre que me referir a este assunto, falarei em cultura brasileira aparentemente ameaçada. Digo aparentemente por conta do que eu vi no "Samba da Vela". Foi animador. Um sopro de felicidade, prazer, esperança, alegria, amizade, uma emoção muito especial enfim.Então caro leitor imagine através destas mal traçadas linhas o lugar e o fato que eu vou lhes contar. Vamos nessa.Segunda feira, 20 horas. Salão central do Centro Cultural de Santo Amaro, São Paulo. Quando se chega por perto já se ouvem as vozes de homens e mulheres cantando um Samba. Cheguei na portaria curioso e animado, pronto para descolar logo uma latinha e cair dentro da roda. Na portaria, uma contribuição de R$2,00 para ajudar na produção, dá direito a um caderno cheio de letras de música. Dou uma olhada rápida, não entendo propósito do caderno e vou em frente. Aí o primeiro choque. Cerca de duzentas pessoas em pé e sentadas em torno de uma mesa e uma vela acesa. Lá, Chapinha, os garotos do Quinteto em Branco e Preto e outros músicos tocavam e cantavam. A cada momento era chamada uma pessoa para ir lá e cantar seu Samba. Aí meus amigos a ficha começou a cair e o bicho pegou.Os caras se encontram para cantar Sambas inéditos. Samba carimbado pelo sucesso não vale. No caderno, que é editado uma vez por mês, estão os Sambas que tiveram mais aceitação pelo público nas semanas anteriores. Todos cantam e aplaudem muito no final. Emocionante. O nível dos Sambas é alto e a faixa etária média é abaixo dos 30 anos. Enquanto a vela estiver acessa o Samba não para e dependendo do clima, que pra minha sorte estava especial naquele dia, o Samba seguiu mesmo com a vela apagada. Fui gentilmente convidado a dar uma canja e quase chorei ao sentir a confirmação do que vi escrito numa faixa ao alto: "O silêncio é uma oração". A atenção para o que é ali cantado é total na primeira vez do Samba, "na volta", já rola até um coro e palmas e, se o Samba for daqueles, o pessoal levanta das cadeiras e sacode a poeira. Pra completar, não há sistema de som, nem serviço de bar. Apenas um pequeno gravador ao lado da vela que serve para gravar os encontros. Se existe um templo do Samba é lá no Samba da Vela. Inacreditável. Emocionante. Maravilhoso e como não podia deixar de ser, invejável.Saímos de lá depois da meia-noite e a grande maioria se manda para pegar o último ônibus para os seus destinos. Os motorizados ou os que perderam a condução, se concentram bar em frente e aí tudo recomeça, só que regado a cervejas e vale cantar o que quiser.Foi um grande presente de natal que ganhei do Mano Heitor, parente do Martinho da Vila que lá me levou. Foi a confirmação de tudo que sempre achei e lá encontrei. Há uma grande juventude brasileira envolvida com a criação e divulgação do Samba brasileiro. Há um Brasil que não aparece no rádio nem na TV. Há uma chama acesa que nunca vai se apagar. É a chama da alma de uma juventude que fala português, toca tambor, cavaco e violão, canta e compõe num estilo altamente sofisticado musical e poeticamente falando.O que eu vi lá em São Paulo foi uma verdadeira manifestação cultural que tem o Samba como objetivo principal. E mais, uma oportunidade que deveria ser imitada por todos que é parar para ouvir Samba. O lucro das bebidas, as gatinhas para paquerar e bate papo enquanto o cara ta cantando, fica lá para o bar que é lugar disso.
fonte: http://www.claudiojorge.com.br/
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